24/06/2009...22:47

Sorria, você está em Paris

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Logo de início achei os franceses muito sérios. Tudo bem que debaixo de um frio de três graus negativos é difícil ficar rindo da vida, mas, nós estávamos em Paris e não conseguíamos nos conter. Entrávamos no metrô às gargalhadas, interrompendo o silêncio do vagão, sob os olhares assustados e repreensivos dos passageiros. Minha avó, com a idade já avançada mas o francês ainda impecável, adorava ficar puxando assunto com desconhecidos, em uma postura tipicamente brasileira. Uma vez, um homem se rendeu, fechou o livro e entrou na conversa dela. Era argelino.Digitalizar0003

Os franceses também não dão cantada, o que soa estranho para nós, afinal, toda brasileira que se preze já foi alvo de alguma gracinha masculina. A princípio, pensei que fosse culpa do inverno, pois com tantos casacos e sobretudos, é até difícil reconhecer o sexo de quem está sob a roupa. Contudo, mesmo no verão, enquanto as francesas abaixam as alças das blusas e levantam as saias para aproveitar o sol, seja nos cafés ou nos jardins, a indiferença masculina se mantém. Está aí um bom exemplo de que o determinismo climático de Gilberto Freire é uma grande furada.

O verão parisiense não perde em nada para o carioca, com temperaturas de até 42°C. Boa sugestão para quem não recebe em euro é levar garrafas d’água na bolsa e enchê-las nas fontes espalhadas pela cidade (afinal, o que não mata, engorda!). E se o assunto é economizar, a melhor opção é alugar um apartamento para temporada, pois assim é possível preparar as refeições em casa. Os restaurantes franceses são muito caros, com exceção dos fast food, que ninguém agüenta a viagem toda. E ir ao supermercado na França pode ser uma experiência interessante. Você encontra flajolets e cassoulets em lata, verduras e legumes descascados em embalagens descartáveis e frutas desconhecidas como physalis, rambutan e figos frescos. Mas não se intimide com os olhares desconfiados quando entrar no metrô cheio de sacolas. Os franceses não fazem compras de mês, provavelmente porque nunca tiveram que se preocupar com uma inflação de 2.751%.Turistas se aglomeram para ver a Vênus de Milo no Museu do Louvre

Assim, você pode guardar suas economias para aproveitar o que Paris tem de melhor. Vá a uma boulangerie e peça um croissant, sem recheio mesmo. É incomparável! Compre várias baguetes, patês, fromages. E se não estiver acostumado com queijos muito fortes, experimente os coulommiers. É melhor se esbanjar com as entradas, pois a culinária francesa padece da falta de prato principal. Fiz essa descoberta durante um jantar na casa de parentes, quando, depois de muita salada, com pães e patês, veio a sobremesa: um delicioso camembert. E foi só.

Na hora de passear, ande bastante. As ruas são limpas e os jardins são lindos no verão. Dizem inclusive que as flores são trocadas a cada dois dias. Mas, se precisar otimizar o seu tempo, esqueça os ônibus de dois andares e aproveite o sistema público de transportes. A cidade tem mais de 300 estações de metrô, espalhadas em 14 linhas, além dos ônibus e trens. Isso significa que você sempre está a 500m de uma estação e se estiver hospedado na periferia, pode chegar ao Centro em 20 minutos. A melhor opção é fazer uma “Carte Orange”, que te oferece passagens ilimitadas enquanto o bilhete for válido. É possível escolher o ticket semanal, mensal ou anual, de acordo com o seu tempo de estada, e usá-lo à vontade. Depois de um dia de verão de mais de 14 horas, já que o sol só se põe às 11 da noite, você não vai se arrepender.Ao fundo, o bairro de La Défense

É irrelevante lembrar que Paris tem mais de 70 museus, entre os quais o Louvre, D’Orsay, Rodin e Picasso, com lindas obras, até para quem não entende nada de arte. Isso sem falar nas inúmeras igrejas e obras arquitetônicas consagradas internacionalmente. Por isso, me reservo o direito de pular este capítulo e partir para um bairro menos badalado que me chamou muita atenção. La Défense, com seus tímidos arranha-céus, foge ao padrão bege-acinzentado, baixo e simétrico de Paris. É um ponto moderno, espelhado e com chafarizes coloridos, de onde se pode admirar toda a cidade.

Para os cariocas, que vivem cercados de morros por todos os lados, a planície parisiense se revela demasiadamente horizontal. Mas pontos altos não faltam para quem quiser apreciar de cima os largos boulevars e o harmônico conjunto arquitetônico, fruto da reforma que Haussman implementou em 1850 e que inspirou o nosso Pereira Passos. Do Grande Arco à Torre Eiffel, passando pela Torre de Montparnasse e a Notre Dame, são inúmeras as opções para driblar o relevo.Escadas do Arco do Triunfo. Para ver Paris do alto é preciso subir!

Em cada caso, a visita à Paris será diferente, dependendo da época do ano, da idade, da companhia, do número de viagens. Afinal, ninguém se banha duas vezes no mesmo rio. Posso dizer que, no inverno, a cidade estará cinza, sem flores, e você, independentemente da quantidade de roupas que vista, sentirá frio ao sair na rua. No verão, tudo estará verde e os chafarizes terão água. Mas a multidão de turistas de todas as nacionalidades (e principalmente japoneses), aglomerada por todos os lados e formando filas intermináveis, será insuportável. E, em qualquer dia, mês ou estação, os franceses estarão lá, sérios e compenetrados em sua leitura durante a rápida viagem de metrô. Por isso, o que tenho a dizer é simples: aproveite tudo e sorria. Paris merece.

1 Comentário

  • Helena de Moraes Frescô

    Concordo com o seu comentário sobre a nossa querida Paris. Estou muito honrada em ter sido citada em seu blog. Apesar da idade avançada, estou me tornando moderna! bjks da vó Helena!


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